segunda-feira, novembro 20, 2006

Os olhos de Javair (Dona Laura)

OS OLHOS DE JAVAIR

Não há dia, no andar pachorrento de tempo, na mente obscura a rememoração:
- Anos ou séculos?
Sei que me arrasto amparado a um muro espinheiro e infindo, chego a sentir os malditos cravar em minhas mãos, isto é, o que restou delas.
Perdi minhas carnes e até meus olhos azuis, dos quais eu tanto me orgulhava, fui personagem de uma cena maquiavélica, devorada por meu próprio orgulho.
Agora procuro a passagem enrustida no meio da galhadura para poder voltar.
Meu nome é Javair, filho único de um modesto casal, quando cheguei, minha mãe já beirava os 30 anos, tive uma infância sem carências.
Na adolescência, senti a dor da primeira perda, a morte de meu pai abriu um rasgo profundo em nosso lar que impiedosamente sugou as imagens coloridas de minha infância.
Mãe assoberbou-se de trabalho, para não pensar, e eu, enquanto pisava um extenso tapete de lagrimas, a própria vida abria com veemência as cortinas para a liberdade, e eu, jovem curioso, deparando-se com a nova brecha, infiltrei-me.
Vida nova, amigos novos, pessoas inteligentes, os colegas elogiavam minha perspicácia, eu era feliz, as garotas preocupavam-se com meu físico, ou com o magnetismo dos meus olhos, carinho eu tinha em abundancia.
Todas as noites íamos às boates, onde corria muito fumo e bebida, fazíamos viagens fantásticas. Por Rute, uma prima, cheguei a sentir algo, mas dispensei-a logo, era pegajosa demais, eu era amarrado na coca já aos 20 anos.
Com minha mãe não havia dialogo, ela parecia uma cartunista, dizia sempre as mesmas frases:
- Javair, meu filho, cuida do teu futuro, se não queres estudar, procura um emprego, afasta-se desta turma, lembra do fulano... – e ali ficava lembrando o fim de algum idiota.
E, em matéria de emprego, ela dava um péssimo exemplo, dava um duro danado numa lanchonete de terceira categoria, eu sentia vergonha dela.
Ela fazia dez horas corridas e ganhava uma bagatela, que não cobria um terço das minhas despesas, era uma incompetente.
Certo dia, necessitado, fui ate aquela espelunca e pedi:
- Manda uma grana aí, ô coroa.
Respondeu-me complacente:
- Eu não tenho dinheiro, meu filhinho.
Esta historia de filhinho irritou-me, cerrei os punhos e fui para cima dela:
- Filhinho uma pinóia, abre esta merda desta caixa.
- Não roubarei, nem mesmo por você, meu filho.
Eu a esbofeteei, o povo aglomerou-se, eu falei:
- Isso é assunto de família, não se metam.
Acuada, ela abriu o caixa e, enquanto eu pegava o dinheiro, pegou o revolver do patrão e atirou, eu cai numa poça de sangue e ela a olhar, esquecida de que eu era Javair, seu único filho.
Rostos estranhos desfilavam ao meu redor, tive alucinações, ate vi meu pai, ele amparava-me em seus braços.
Quando acordei, estava num lugar esquisito, onde o tempo não andava, a vida era em câmera lenta, o lugar era uma espécie de enfermaria, tinha o teto e as paredes em azul-claro, havia leitos e estavam ocupados, mas ali ninguém falava minha língua.
Sai para o corredor, cruzei com muitas pessoas uniformizadas, mas não tentaram me deter, atravessei a rua, sentei-me numa pracinha simpática e fiquei a observar o vilarejo, onde todos pareciam dormir.
As casas eram todas pequenas, de cores algodoadas, chocavam-se com o colorido das flores, um caramanchão de trepadeiras espinhosas escondia o muro da divisa. Eu me perguntava:
- Será que eu morri e estou no inferno? Se for o céu, é o subsolo, mesmo que seja, eu não vou ficar neste lugar miserável.
A este pensamento, aprofundaram-se as dores no meu abdômen e minhas feridas sangraram. Um homem aguava as plantas, pedi água, ele deu-me e também uma fruta.
A fruta era de cor verde, saborosa e devia ser nutritiva, pois logo eu estava restabelecido, andando nas ruas de chão batido, pensava na minha pobre vida, aquele lugar era misterioso, até os gansos andavam pelo meio das hortaliças sem bicá-las.
Uma casa chamou minha atenção. Por ser diferente das outras, deduzi que fosse uma igreja, adentrando o local beneficiei-me com o ar fresco e o ambiente confortável, havia uma parte saliente onde ficava o púlpito, atrás dele corriam umas cortinas com estampas de flores, a Bíblia aberta, as cadeiras dispostas lado a lado, não deixavam duvidas: era uma casa de orações. Um ancião chegou ao púlpito e todos o aplaudiram, voz pausada, olhar profundo, tudo ótimo.
De repente, me senti um banana no meio daquela gente vetusta, subi numa cadeira e gritei:
- Se tiver algum idiota aqui que fale minha língua, diga-me como saio deste manicômio!
A piedade estampada nos rostos mortuosos foi a reposta.
Abandonei o recinto, voltei para o caramanchão reclamando.
- Quero sair deste lugar micha, onde está o cigarro, as mulheres, a bebida?
Afastei os galhos das flores, que chegavam até o chão, infiltrei-me por baixo, as plantas espinhosas eram só fachada, uma espécie de camuflagem do muro.
Espiei para o outro lado do muro, havia um clube onde os namorados, agarradinhos, passeavam à beira de uma piscina, gurias de corpos esculturais, usando minúsculos biquínis, deliciavam-se com drinques coloridos, protegidas por guarda-sóis multicores.
A dois passos de mim esta o paraíso e eu aqui como morto-vivo. Gritei para o homem da água:
- Hei, quero sair daqui!
Olhou-me condoído e jogou uma chave, mostrando-me a seguir a passagem, eu fui.
Já do outro lado, eu disse em voz alta:
- Enfim, a terra prometida, meu éden.
O clima era diferente, o vento se fazia preguiçoso, mal mexia com os cachos da loira de olhos incandescentes. Cheguei na beira da piscina de águas efervescentes, olhei firme para cada uma das mulheres para que sentissem a força do meu olhar, joguei-me. As borbulhas vinham de um ácido, creio, perdi meus olhos, minha vaidade, minhas carnes caem aos poucos. Foi difícil encontrar o muro, mas eu preciso daquela água, preciso daquela fruta.



Dona Laura

2 Comments:

Blogger Fotografias Poéticas said...

Este magnifíco texto teve continuação?

8:06 AM  
Blogger Fotografias Poéticas said...

Este magnífico texto teve continuação?

Abraços,
José Montanha

8:07 AM  

Postar um comentário

<< Home