segunda-feira, novembro 20, 2006

Faveláfrica (Gato Preto)

FAVELÁFRICA



Certa noite ouvi gritos, estridente e dolorosos
Os gritos eram de tamanha dor, tristeza e desespero
Que me aproximei, e perguntei aquela triste e bela mulher negra, o que havia

Ela como louca, alucinada gritava
Lá vem ele, lá vem ele, lá vem ele, lá vem ele
Me aproximei e perguntei ele quem? Ele quem?
Ela desesperada e cheia de dor, e ira, respondia

Ele o cheio de maldade, pervercidade, de atos desordeiro
Cruelmente arrastando os meus filhos, para um longíquo cativeiro
Sem amor, só rancor, desonrando meus herdeiros
Destrói a mim, a meus filhos, simplesmente pelo dinheiro

E embravecida e chorosa, enconsolavelmente ela gritava
Lá vem ele, lá vem ele, lá vem ele, lá vem ele
E novamente, olhei para ela e perguntei
Ele quem? Ele quem? Ele quem? Ele quem?
Melancolicamente, arduamente, respondeu

O agressor genocida, destruidor afanador de vidas
Levando meus filhos inocentes por esses mares em tristes correntes
Correntes, amordaças, grilhões, cachote, pelourinho, porões,
Chicote, torturas, chibatas, tronco, casa grande senzala

Parasitas, sangue-sugas, amantes da dor da tortura
Sem amor, só rancor sem conduta
E ela cheia de sentimentos penosos, incansavelmente ela gritava
Lá vem ele, lá vem ele, lá vem ele, lá vem ele

E eu tornei a perguntar, ele quem? Ele quem?
E a mãe África triste respondeu
O insano desumano, profano tirano
O hospedeiro, besta, desordeiro
O causador da dor, condutor, chofer do pesadelo
Assassino, infame, bandoleiro
Sanguinário mercenário do estrangeiro
Abutre, chacal, carniceiro
Ele é! O NAVIO NEGREIRO

Reflito e sinto pena, daquela preta ingênua
Que aceita ser chamada, de multa ou morena
Valença, valença, valei-me meu Deus, de tanta inconsciência
Ela se esqueceu, do tapa na cara, a dor da chibata

O chicote que marca, o tronco a senzala
Na boca amordassa, da preta Anastácia
Chefe Ganga Zumba, Zumbi e Dandara
O racismo não passa, é tudo fachada
É jogada armada
O MASSACRE NÃO PÁRA

É porta na cara, da nossa raça
O corpo na vala, a rota que mata, polícia que passa
Mais um preto arrasta, o capitão lá da mata
Do branco a risada, racista piada

É mesmo uma praga, por toda massa?
O racismo se espalha, o preconceito exala
Quinhentos se passa, de mentiras safadas
Acredita quem quer, em contos de fadas

Pra mim isso basta, tô pegando minhas facas
Minha língua é navalha, palavra que rasga
E fogo que alastra, deflagra e conflagra
Mas não quero só fala, eu parto pra prática

Olha lá no templo o irmão desiludido
Louco muito louco por um pouco de alívio
Sacaram de uma sacola era esmola era o dízimo
Fogueira fumaça carvão, forca fogo a inquisição

Católica religião, demagogia preconceito
Eu vejo o desrespeito não aceito não respeito
Olha o seu conceito simplismente só rejeito
Entrego ao despreso todos seus preceitos

Miscigenação forçada, mãe África estuprada
Nunca descobridores, invasores só canalha
Torturaram minhas raízes e nos deram marquises
Agora surgi o revide, Gato Preto te agride

O guerreiro vai atacar, yalorixá yoruba
Keto e nação banto, nago povo africano
Nos roubaram a riqueza, a beleza a nobreza
A terra a natureza, desimaram a realeza

Arquitetura, estrutura, medicina e cultura
Diamantes agricultura, e todo poder de cura
Na minha religião, inquisição e tortura
O ataque o massacre, o abate os combate

As brigas as intrigas na Serra da barriga
Negros combatentes luzitanos covardes
A trincheira tá armada a arena e palmares
Católica covarde, com o apoio do padre

Resultado do pecado, esticado lá na esquina
Pro negro só chacina, uns roubaram a auto estima
Ter cabelo crespo, e vergonha pra menina
Se somos lembrado, no pesado ou na faxina

LUTHER KING, ZUMBI, MARIGHELA, X, E NELSON MANDELA
O POVO PRETO AVANTE NA GUERRA
SABOTAGE E JR ABUJAMAL E DONISETE



Devastaram o império, saquiaram o minério
Era a peste branca, apoiada pelo clero
Mais eu quero, quero, e espero, sigo meu critério
Mas sempre, sempre reto, tipo certo sempre alerto

Isso sempre quero, seguir reto meu protesto
Chicote rasgou corpo, sangue rolou no rosto
O carrasco achou pouco, era sangue de um porco
Assim ele descia, chicote, chibata descia

O irmão traidor, me persegue no asfalto
Hoje quatro rodas, ontem cavalo
Hoje é polícia, ontem capitão do mato
Fato do meu passado, não me faço de rogado

Conheço, reconheço, muito bem todos esses fatos
Não me sinto derrotado, vou além conquisto espaço
Preto não é aceito, simplesmente tolerado
Quero a parte no meu prato, do bolo meu pedaço

Patroa muito boa, escraviza “Seu” João
Se gosta da Maria, de vassoura na mão
No tanque lava roupa, e a barriga no fogão
Uma falsa dialética de forma sintética

Ausência de ética, falando em estética
Negro marcado, intitulado plebeu
A África não vale, só padrão europeu
De que o branco é bonito, feio sou eu

Professor me fale, dos meus líderes, martires
Chega de contrastes, ascenção sociedade
Quero a parte que me cabe educação e faculdade
Não quero as calçadas, eu preciso é de aulas

Trabalho informação, não copo de cachaça
O tolo quer maconha, eu prefiro um diploma
Informado, diplomado, doutorado, graduado
Igual a Milton Santos, foi lá no passado

Parto pro debate, digo não à todas grades
Incentivo o ataque, agrupamento pro combate
Quero reparação, por todo massacre
E se eu sou oitenta, cota oitenta pra minha classe

E pra você ouvir, eu vou lhe repetir
Quero a parte que me cabe, quero a parte que me cabe
Criaram novos termos, camuflando o preconceito
Fingindo encobrindo, o desastre que causou

Pretinho, moreninho, mulato homem de cor
Não aceito eu sou negro, eu sou afro-brasileiro
Herdeiros de Zumbi, eu também sou guerreiro
Cartola, Mandela, Portela, Marcos Garvei, Marighela


Revolta da Chibata a Revolta dos Malés
Desmontutu minha nação gege
Meu black, minhas tranças, um exemplo pras crianças
Minhas tranças, o meu black, um exemplo pros moleques

Candomblé, capoeira, feijoada caseira
Foi minha mãe quem criou
Besteira muita asneira, o livro já falou
Princesa Isabel, nunca libertou

Leci Brandão, Preta Anastácia
Benedita e Dandara

Religião, cultura, costumes destrossados por seres que se vangloriavam de princípios superiores aos dos irmãos africanos e indígenas, mas foram eles, os próprios os que se auto-qualificam como civilizados, mas foram eles! Que destruiram índios e negros, destruindo a genuina cultura de cada povo, impondo práticas a atos impuros perante os olhos dos dois povos, violaram terras virgens, mataram, massacraram, estupraram seus filhos, sem respeito algum, fincaram bandeiras em terras alheia, se apossando, rapitando, sequestrando o povo africano.
E assim prosseguia atitudes escravocratas em pról de um único objetivo o lucro fácil ouro, diamante de classe, foram eles, que se escravizaram, mataram, torturaram, mas quem são eles? Os europeus, os norte-americanos foram eles e outros do primeiro mundo, e hoje querem pousar de exemplo, espelho para o mundo.
Depois de centenas de anos de chibatas, e troncos, senzalas, correntes, pelourinho (peça de tortura) nos oferecem uma falsa lei áurea, dona Izabel, outras leis estabelecidas pelos opressores são todas mentirosas.
MAS SEMPRE ONDE HOUVER OPRESSÃO, SEMPRE HAVERÁ UM REBELDE

HERANÇA DA ESCRAVIDÃO
Moreno (a) mulata (o) marrom bombom
Complexo, medo, exclusão social
Favelas, analfabetismo, marcas, tralmas
Sentimento de inferioridade, química no cabelo
Falta de orgulho, alta estima baixa, preconceito
Racismo, dor, lágrimas, sem terras, sem cavalos
Crimes, acusação, desprezo, descaso, danos, descalços
Desconforto, discórdia, desespero, desemprego.

VENENO X ANTÍDOTO
HITLER X MARTIN LUTHER KING
MUSSOLINE X MAHATMA GANDHI
PINOCHÊ X MALCOM X
W. BUSH X MARCOS GARVEI
STALIN X FARRACAN
SALAZAR X MANDELA
NICOLAYTHELTSHESCO X GANGA ZUMBA
FRANCO X GANA ZONA
DOMINGO JORGE VELHO X ZUMBI
ROBERTO MARINHO X GOG
BORBA GATO X MANO BROWN
ANTONIO CARLOS MAGALHÃES X ALTINO GATO PRETO

Gato Preto, nasceu em Ilhéus, BA, e pertence ao grupo A família.

2 Comments:

Blogger vital said...

Dona Nina

Eu vi D°Nina virar os olhos e olhar pro céu, eles de rubros ficaram esbranquiçado, ela deu um tremor como se estivesse recebendo uma entidade, começou a abençoar um á um. Às crianças fizeram uma roda em volta dela, todas sentadas, que começou: “ A necessidade da ganância me fez viajar.Venho de uma terra distante onde os tambores batucavam no lugar dessa sabiá. Aqui encontrei um povo diferente, dizendo que nós não era gente e só servia pra trabalha. Nos botando na praça e começando a nos examinar, um homem apertava meus seios, olhava meus dentes e discutindo com um outro
mandava o preço abaixar esse outro dizia que, eu era a melhor e ele ainda teria o privilégio de ser o primeiro a me experimentar. Aos doze anos vi o prazer de toda noite de meus pais se transformar em dor. Nossa alma não existia, assim o padre em nome do Deus deles falou mas saiba vocês que, Babalorixá é o nosso Deus maior e ele está vos protegendo nesse sofrimento diário. Não acredite em nada que o Deus deles falam, Babalorixá é maior. Um dia...”

aí Gato Preto, esse é um trecho de um conto feito pela coletividade.
acho que tem muito semelhança com "faveláfrica". o conto na íntegra se encontra no blog:http://www.menindigus.blogspot
.com/

um abraço mano!

7:38 PM  
Blogger Sandra Regina Andrade de Moura said...

Bom dia Gato Preto,
São 5:39 da manhã, desde as 4:00 estou pesquisando sobre você, mas não encontrei muito sobre sua vida, uma coletânea com as suas poesias. Você tem algum livro publicado? Procurei no Sebo, nas livrarias e não encontrei.
Sou mestranda da UEFS e gostaria de desenvolver minhas pesquisas a seu respeito. Preciso de um contato com você. Conhecer melhor o seu trabalho, preciso de material para as minhas argumentações. Meu e-mail é sandradedemoura@yahoo.com.br tel. Tim(75)9221-4273. Sou de Nazaré das Farinhas. Um forte abraço, Sandra Regina Moura

2:01 AM  

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